Era Dezembro, muito trabalho, correria que só, atividades saindo pelo ladrão e um telefonema me pega no ápice de uma discussão profissional daquelas...
-Anna Paola?
-Sim!
-Pode falar?
-Sim!
-Seu nome foi cogitado para uma seleção em Moçambique, África, tem interesse em conhecer a proposta?
... Silêncio, coração disparado, ... fração de segundo e, em seguida disparo sem pensar muito.
-Conhecer a proposta me vinvula a algum tipo de compromisso?? (Foi o que saiu diante daquela perplexidade toda... Eu sabia que não podia mais estender o silêncio, mas a adrenalina da discussão anterior ainda inundava meu sangue e eu não conseguia separar os tags por assunto pra dizer o que me deixava mais atrapalhada naquele momento)...
-Não! Você pode conhecer a proposta e saber quais são os detalhes desse processo seletivo, basta que vá ao blablabla, dia tal, tal horas e procure por fulana...
Assustada repeti dia, local, horário e os nomes para garantir que não esqueceria nenhum e agradeci...
Ainda vesga com tudo o que me assombrava comecei a ter visões de crocodilos, elefantes, corpos esqueléticos e olhares de pavor, miséria, fome, mosquitos, enfim, minas terrestres, danças tribais, safaris e guerras, Mandela, música, navio negreiro e tudo o mais que a África até então representava pra mim...
Por cinco minutos ou mais, senti uns 300 sentimentos diferentes, fui lá na frente e voltei, pensei no meu relacionamento, nos meus pais, na faculdade, nos meus amigos, na BR381, nos meus planos de vida, em tudo o que nunca pensara antes e senti junto uma pontinhazinha de alegria por ter sido cogitada - ora bolas! Sou demasiado humana e minha auto-estima até que gostou de saber que o meu trabalho vem brotando frutos...
Daí em diante, pra encurtar o caminho, o tempo começou a voar sobre a minha cabeça e a rotina se desdobrou em muitas, dando conta dos afazeres e obrigações diárias mais as entrevistas, conversas, emails, debates em família, especulações e ansiedades sobre o novo rumo que a vida poderia tomar a partir dali...
E da-lhe debate! Da-lhe conversa... Terapia-a-a-a!!!
Todos começamos a nos informar sobre o novo continente, costumes, prós, contras, cenas de um futuro que se anunciava em solo africano...Muito se falou, muitos boatos, muitas fantasias de cabeças apavoradas - calor infernal, crocodilos no quintal, miséria absoluta, malária, AIDS, falta de infraestrutura, comida, energia... tudo batia em nossas cabeças feito bate-estacas de construção, numa passada forte e certeira, gerando a maior de todas as dúvidas: Dá pra sobreviver assim? Vale a pena?
Muitos dias se passaram, alguns mais calmos outros agitadíssimos e enfim o gran finale...
Belo Horizonte, Confins, 20 de Fevereiro, Quase 10 pessoas visitando juntas o que viria a ser nossa casa pelos próximos 2, 3 anos... Familiares junto a bordo, muita conversa, altos e baixos e uma só realidade - A visita de reconhecimento seria definitiva ... Dali sairiam decisões que mudariam nossos destinos, todos e cada um...
E não é que o "diabo não era assim tãaaaaaaao feio"?
A viagem é cansativa sim, o tempo não passa nunca e quando passa rouba-nos logo as 5 preciosas horas de sono por causa do fuso confuso. O que se há de fazer? Não dormimos para "entrar" no fuso, mas não sei se foi uma boa, fiquei babando quase 3 dias pra "chegar o organismo no lugar" - Nada mal. Tem pobreza sim, tem diferença sim, tem calor mesmo, a cultura é diferente, o povo é outro, a língua também, mas, honestamente, a impressão foi melhor do que todos esperávamos - A África tem muitas semelhanças com o Brasil e já se prepara para um futuro de desenvolvimento muito maior... Respeitada a realidade desse povo sofrido, vitimado pela guerra e carente de quase tudo, é possível se viver com muita dignidade, e, cá entre nós, as possibilidades são inúmeras... Gigantescas!
Desta forma, acertados os detalhes e retomado o diálogo, preparo-me para fechar um ciclo de desenvolvimento iniciado em 2006 e abrir outro, com data prevista pra acabar... Ou não!!!
Nada mais será como já foi um dia... Mas uma coisa é certa! VOU MORRER DE SAUDADE!!!
Volto depois, dando conta de informações geográficas e políticas da minha nova morada por no mínimo dois anos!
Abraços e obrigada a todos os amigos e familiares que estão me acolhendo com boas energias e orações, desejo de sucesso e força pra suportar a saudade sem tamanho - é esse amor que me impulsiona para a vida, sempre!